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Para quem ainda não leu
A arte de ser avó
Rachel de Queiroz
Netos são como heranças, você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu... É como dizem os ingleses, um Ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade trata-se de um filho apenas suposto. O neto é, realmente, o sangue do seu sangue, filho do filho, mais filho que filho mesmo...
Cinquenta anos, cinquenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as suas compensações: todos dizem isso, embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto, mas acredita.
Todavia, também obscuramente, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores com suas paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essa efervescência. A saudade é de alguma coisa que você tinha e que lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que tem sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres adultos; não são mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe coloca nos braços um bebê. Completamente grátis, nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choros, aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um filho seu que lhe é devolvido. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância. Ao contrário, causaria espanto, decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá netos para nos compensar de todas as perdas trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixados pelos arroubos juvenis. É quando vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre olho e diz:
Vó, seu coração estala de felicidade, como pão no forno!
William,
ResponderExcluirNão conhecia. Adorei conhecer essa crônica da Raquel de Queiroz ainda mais que agora tô vivenciando isto............que é tudo mesmo.
Obrigada por disponibilizar o texto aqui.
Beijocas.
É boa, tnha lido, sempre boa de reler. Obrigada, Will!
ResponderExcluirCara amiga Cecília
ResponderExcluirTivemos a ventura, minha mulher e eu, de cuidar do único neto aqui no Rio para que minha filha pudesse manter o emprego. É indescritível a experîência que vivenciamos com os cuidados todos voltados para ele e acompanhando a evolução do seu crescimento. Ele fez coisas que meus flhos nunca tiveram oportunidade de fazer.
Beijos
"Sim, tenho certeza de que a vida nos dá netos para nos compensar de todas as perdas trazidas pela velhice". diz a Rachel.de Queiroz.
ResponderExcluirO exercício da atividade de avó é mais do que uma compensação; é um prêmio que não é dado a todas as mulheres. Muitas são as que querem mas não têm a oportunidade de conviver com os netos.
Longa vida para ti para que possas acompanhar as graças e travessuras de Juju e Rafa.
Beijos
"Sim, tenho certeza de que a vida nos dá netos para nos compensar de todas as perdas trazidas pela velhice.O neto é, realmente, o sangue do seu sangue, filho do filho, mais filho que filho mesmo..."
ResponderExcluirWilliam querido amigo.
Obrigada por esta jóia rara da Rachel.
Ser avó ou avô é um prêmio, que não sabemos porque recebemos.....Será que merecemos???
Vou linkar pode???
Amei demais!!!!!
Beijos amigo.
Sonia.
Ola Sônia. Que bom que você gostou.
ResponderExcluirPode linkar à vontade. A própria Rachel de Queiroz vai gostar de ver divulgada essa crônica.
Beijos
Lindo! E é isso mesmo. O melhor de ser avó é ouvir o neto ou neta falar "vovó" tão docemente que parece jogar em nós um balde de caldo de cana como o daquele tempo de infância na fazenda. Eles são pequenas jóias na nossa vida. De uma vovó coruja de sete, a caminho do oitavo neto.
ResponderExcluirIlce